quinta-feira, 31 de julho de 2014

Há em Toda a Beleza uma Amargura

Há em Toda a Beleza uma Amargura
Há em toda a beleza uma amargura 
secreta e confundida que é latente 
ambígua indecifrável duplamente 
oculta a si e a quem na olhar obscura 

Não fica igual aos vivos no que dura 
e a não pode entender qualquer vivente 
qual no cabelo orvalho ou brisa rente 
quanto mais perto mais se desfigura 

Ficando como Helena à luz do ocaso 
a língua dos dois reinos nâo lhe é azo 
senão de apartar tranças ofuscante 

Mas à tua beleza não foi dado 
qual morte a abrir teu juvenil estado 
crescer e nomear-se em cada instante? 

Walter Benjamin, in "Sonetos" 
Tradução de Vasco Graça Moura